segunda-feira, 30 de novembro de 2009
a vira-latas e o colorado
Surpresas podem estar em toda a parte e a toda hora. Sábado, às 7h30 da manhã, por exemplo. Existe vida no sábado às 7h30 da manhã, eu não sabia. Descobri por causa da gripe H-A-N H, Não há, Há! Ah! Ah! Ah! Explico: fui largar meu filho na escola, que recupera as aulas por causa da gripe Ah! Ah! Que Horror Brincar com Coisa Séria e tinha um cara que levava, no romper do dia, uma cadela para passear. Não sei como ele conseguiu, mas estava com a camiseta do Inter toda amassada. E aquele tecido irritante e antitranspirante não amassa, todos sabem. Ele tinha um olhar distante, ou melhor, um olhar equidistante. Para ser mais exata, olhava o coco que insurgia do animal, olhava fixamente, olho arregalado e imóvel... por certo pensava: - Ah, cagou! Não trouxe saquinho e, puta merda, essa mulher tá me olhando.Vou ficar com cara de paisagem para ver se ela e guri vão embora. Mas surpresas estão em toda parte, como já disse, e meu filho resolve perguntar a raça, a idade e o nome do animalzinho que a essa hora já cheirava seu próprio excremento. – Vira-latas, disse o cara. Se chama Pagu. – Tatu? Perguntou a criança horrorizada? Não, PA-GU, disse o Colorado. Fiquei intrigada com aquela escolha. Uma simples palavra que revelava tanto daquela camiseta amassada e daquela não-raça que tantos amam e não a trocam por nenhum pedigree.
domingo, 22 de novembro de 2009
a mulher que mastigava gelo
Nunca. Problemas para dormir tive. Para acordar, já muitos. E justo naquela noite acordei, alta madrugada, e inverno, o que piora tudo. Aquele ruído sabia minutos passados, não era de nenhum sonho. Vinha da sala, e vinha luz também. Um estranho barulho, maior pelo silêncio da noite, agarrado no cricricar de um grilo. Solitários nós: eu, grilo e o barulho. Os olhos em bolitas resolvo procurar os chinelos e levanto. Chego na sala, olhos apertados veem a mulher sentada em frente a televisão sem som e uma bacia pequena no meio das pernas. Embaixo da bacia, sobre as pernas, um cobertor. Ela olha para mim sem parar de mastigar e, bem nessa hora, quebra nos dentes um pedaço grande, que faz rolar uma lágrima no canto do olho. Dor e prazer.
- O que tu tá fazendo, Dori?
- Eu? Nada.
- Como, nada? Que barulho é esse, e o que tu tá comendo?
- Gelo.
- Que maluquice. Endoidou de vez?
- Eu não. Faço isso toda noite, depois que tu deita.
- Há quanto tempo?
- Mais de ano.
- Eu não vou pagar outro tratamento de dente para ti, Dori. Tu sabe o que me custou teu último dentista.
- Nada a ver. Comer gelo não dá problema nos dente. É como beber água, só que melhor. Quer experimentar?
- Era só o que me faltava. Vou deitar.
Toda a noite era a mesma coisa. Dormia e acordava com o maldito barulho. Não conseguia não levantar. Chegava lá e estava ela. No mesmo lado do sofá, vendo nada na tevê e aquela cara de satisfação. Insuportável.
- Tem certeza que não quer experimentar?
- Vem deitar, Dori, amanhã tu chega atrasada de novo. Vai perder a faxina. Quem avisa amigo é.
- Perdê nada.
- Vem deitar então, que eu te dou um trato, minha louca de atar.
- Tá, melhorou, já vou. Só quero terminar esse aqui, encher as forminhas e já vou. Mas experimenta antes, daí eu juro que digo aquilo que tu gosta e faço aquilo que tenho vergonha de dizer, mas nunca de fazer.
- Não vou experimentar nada. Como se não conhecesse gosto d`água! Mulher maluca.
- O que tu tá fazendo, Dori?
- Eu? Nada.
- Como, nada? Que barulho é esse, e o que tu tá comendo?
- Gelo.
- Que maluquice. Endoidou de vez?
- Eu não. Faço isso toda noite, depois que tu deita.
- Há quanto tempo?
- Mais de ano.
- Eu não vou pagar outro tratamento de dente para ti, Dori. Tu sabe o que me custou teu último dentista.
- Nada a ver. Comer gelo não dá problema nos dente. É como beber água, só que melhor. Quer experimentar?
- Era só o que me faltava. Vou deitar.
Toda a noite era a mesma coisa. Dormia e acordava com o maldito barulho. Não conseguia não levantar. Chegava lá e estava ela. No mesmo lado do sofá, vendo nada na tevê e aquela cara de satisfação. Insuportável.
- Tem certeza que não quer experimentar?
- Vem deitar, Dori, amanhã tu chega atrasada de novo. Vai perder a faxina. Quem avisa amigo é.
- Perdê nada.
- Vem deitar então, que eu te dou um trato, minha louca de atar.
- Tá, melhorou, já vou. Só quero terminar esse aqui, encher as forminhas e já vou. Mas experimenta antes, daí eu juro que digo aquilo que tu gosta e faço aquilo que tenho vergonha de dizer, mas nunca de fazer.
- Não vou experimentar nada. Como se não conhecesse gosto d`água! Mulher maluca.
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