domingo, 27 de novembro de 2011

Gordinhas de salto agulha

Botero é o único latino-americano (colombiano) entre os dez artistas plásticos vivos que mais venderam em leilões nos últimos 30 anos.  (Pesquisa publicada em maio pela revista inglesa Art Review)


Todo dia, ao entrar no elevador para ir ao trabalho, encontro uma gordinha simpática que faz um ar de espanto ao me ver. Todo santo dia. Não evoluímos de um bom dia, mas tenho certeza que ela pensa o mesmo que eu: - Essa mulher parece tanto com alguém que eu conheço, mas não sei de onde.
Falando em gordinha, vocês já devem ter reparado nas gordas de calça justa. É impossível não reparar nelas. Com o advento do cóton e do elastano, elas se proliferaram. Sem culpa. A gordura se ajusta ao mundo interior. Salta onde é mais proeminente, mas ainda assim, sob controle. As gordinhas do elastano adoram blusas justas e, às vezes, curtas, que com o movimento do andar deixam escapar um naco de barriga alva. Ah, e sapatinho baixo, confortável, de preferência, sapatilha. Inverno e verão. Se a opção for chinela rasteira ou sandália, sempre das bem abertas, de forma que os dedos gordos saem um pouco para fora ao caminhar.
Mas o que eu quero mesmo é falar das gordinhas que eu invejo. As de salto alto. Um dia, de dentro de um provador eu ouvi um grito: - Ai, que barrigããão! Como vi que o lamento vinha do cubículo ao lado do meu, foi impossível não espiar quando a colega se dirigiu à atendente para devolver as roupas e sair. - Vai alguma? E essas, não vão? insistem com enfado as funcionárias das lojas de departamentos. Era uma gorda imperial. Enorme, justa e... salto agulha, bico fino. Uma coisa.
Essas gordas são quase uma instituição. Desafiam os governos e a lei da gravidade. Estão em toda a parte, em todas as estações. São poderosas, são inquestionáveis. Essas são as gordas Extra G que nos balaios de oferta se acotovelam por uma confecção tamanho G dizendo: não sei se levo G ou GG, porque odeio roupa larga. Essas gordas assumidas, que ajeitam os seios te encarando são as mais francas que conheço. As que, ao contrário de mim, já teriam notado o espelho novo que foi colocado no elevador do meu prédio.

sexta-feira, 19 de março de 2010

ridícula, porém a sós

graças a deus inventaram aqueles dispensers de papel higiênico em que as folhas já saem fragmentadas. Cada vez que entro em um banheiro público com aquilo me sinto uma ser humana mais completa, mais digna. ocorre que tenho uma mania esquisita de quando vou a um banheiro, enrolar o papel higiênico no pescoço, em várias e várias voltas. de forma que não falte, quando eu estiver em posição de desvantagem (?). e como podem imaginar, essa cena se repete incontáveis vezes, dependendo do calor da festa, do animado do bar...acontece que quando me abaixo, para não sentar na tampa do vaso, olho para mim mesma, com aquele colar elisabetano branco - às vezes nem tão branco- dependendo da qualidade do papel, fico pensando que tem alguma coisa errada no design feminino. só pode ter sido uma mulher quem inventou as folhas fragmentadas. bendita seja.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

o beijo do zelador

fui fazer uma entrevista com um zelador hoje pela manhã. muito simpático e atencioso, me contou que trabalhava no prédio há 20 anos, desde que fora construído. fiz várias fotos suas pelo condomínio e ele se parecia estar se sentindo um rei em seu castelo. no hall, próximo à quadra de tênis, junto às bromélias em flor, nas piscinas...em todos os clics a mesma soberba. ao terminar o trabalho, apertei sua mão e desejei feliz natal a ele e sua família. disse-lhe que era muito simpático. ele devolveu: e a senhora é linda. agradeci. quando foi abrir o portão da garagem para eu saísse fechou os olhos e colocou a mão sobre a boca, apertando um beijo que logo depois iria largar, em um sopro. com uma naturalidade dos velhos amantes, com uma leveza e alegria que só alguns angolanos, como ele, sabem ter.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

a vira-latas e o colorado

Surpresas podem estar em toda a parte e a toda hora. Sábado, às 7h30 da manhã, por exemplo. Existe vida no sábado às 7h30 da manhã, eu não sabia. Descobri por causa da gripe H-A-N H, Não há, Há! Ah! Ah! Ah! Explico: fui largar meu filho na escola, que recupera as aulas por causa da gripe Ah! Ah! Que Horror Brincar com Coisa Séria e tinha um cara que levava, no romper do dia, uma cadela para passear. Não sei como ele conseguiu, mas estava com a camiseta do Inter toda amassada. E aquele tecido irritante e antitranspirante não amassa, todos sabem. Ele tinha um olhar distante, ou melhor, um olhar equidistante. Para ser mais exata, olhava o coco que insurgia do animal, olhava fixamente, olho arregalado e imóvel... por certo pensava: - Ah, cagou! Não trouxe saquinho e, puta merda, essa mulher tá me olhando.Vou ficar com cara de paisagem para ver se ela e guri vão embora. Mas surpresas estão em toda parte, como já disse, e meu filho resolve perguntar a raça, a idade e o nome do animalzinho que a essa hora já cheirava seu próprio excremento. – Vira-latas, disse o cara. Se chama Pagu. – Tatu? Perguntou a criança horrorizada? Não, PA-GU, disse o Colorado. Fiquei intrigada com aquela escolha. Uma simples palavra que revelava tanto daquela camiseta amassada e daquela não-raça que tantos amam e não a trocam por nenhum pedigree.

domingo, 22 de novembro de 2009

a mulher que mastigava gelo

Nunca. Problemas para dormir tive. Para acordar, já muitos. E justo naquela noite acordei, alta madrugada, e inverno, o que piora tudo. Aquele ruído sabia minutos passados, não era de nenhum sonho. Vinha da sala, e vinha luz também. Um estranho barulho, maior pelo silêncio da noite, agarrado no cricricar de um grilo. Solitários nós: eu, grilo e o barulho. Os olhos em bolitas resolvo procurar os chinelos e levanto. Chego na sala, olhos apertados veem a mulher sentada em frente a televisão sem som e uma bacia pequena no meio das pernas. Embaixo da bacia, sobre as pernas, um cobertor. Ela olha para mim sem parar de mastigar e, bem nessa hora, quebra nos dentes um pedaço grande, que faz rolar uma lágrima no canto do olho. Dor e prazer.

- O que tu tá fazendo, Dori?

- Eu? Nada.

- Como, nada? Que barulho é esse, e o que tu tá comendo?

- Gelo.

- Que maluquice. Endoidou de vez?

- Eu não. Faço isso toda noite, depois que tu deita.

- Há quanto tempo?

- Mais de ano.

- Eu não vou pagar outro tratamento de dente para ti, Dori. Tu sabe o que me custou teu último dentista.

- Nada a ver. Comer gelo não dá problema nos dente. É como beber água, só que melhor. Quer experimentar?

- Era só o que me faltava. Vou deitar.

Toda a noite era a mesma coisa. Dormia e acordava com o maldito barulho. Não conseguia não levantar. Chegava lá e estava ela. No mesmo lado do sofá, vendo nada na tevê e aquela cara de satisfação. Insuportável.

- Tem certeza que não quer experimentar?

- Vem deitar, Dori, amanhã tu chega atrasada de novo. Vai perder a faxina. Quem avisa amigo é.

- Perdê nada.

- Vem deitar então, que eu te dou um trato, minha louca de atar.

- Tá, melhorou, já vou. Só quero terminar esse aqui, encher as forminhas e já vou. Mas experimenta antes, daí eu juro que digo aquilo que tu gosta e faço aquilo que tenho vergonha de dizer, mas nunca de fazer.

- Não vou experimentar nada. Como se não conhecesse gosto d`água! Mulher maluca.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

olhando a cara da morte na ponta dos pés

O coração meio que parado, meio que disparado. Aquele gosto na boca de quem fica uma noite sem dormir e a areia raspando os olhos. O barulho das rodinhas de metal no piso gelado. Três mulheres em volta da velha. Cada uma fica na ponta dos pés por alguns segundos e dá lugar à outra. Cada uma a seu tempo olha lá para dentro, vendo a cara branca, nariz fino e gelado, pêlos espetados no queixo. Cada uma tenta ver melhor, mas aquele pequeno vidro que se desloca para o lado e dá luz a velha, atrapalha o olhar das três jovens. Reflexo. Somando a idade das três, quase dá a idade da velha. O vidro é um espelho. Fecha logo essa janela do caixão. Deixa a velha descansar.